Boa estratégia não é sobre acertar o futuro. É sobre conseguir enxergar mais de um futuro possível e, ainda assim, decidir onde apostar. Essa é uma das ideias que atravessam a conversa com Roger Ingold no novo episódio do Consense Talks.
Roger passou três décadas na Accenture, onde entrou como trainee, tornou-se sócio e chegou à presidência da operação no Brasil e na América Latina. Depois da carreira executiva, passou por Stanford e pelo Vale do Silício e, hoje, atua como investidor e conselheiro de empresas de diferentes setores. É uma trajetória que lhe permitiu observar estratégia de posições muito diferentes, como consultor, executivo, conselheiro e investidor.
No episódio, Roger fala sobre o papel do repertório e da leitura de cenários para perceber mudanças antes que elas se tornem óbvias. Mas a conversa também toca em uma dificuldade menos visível: muitas vezes, a empresa enxerga os sinais e, mesmo assim, não consegue transformá-los em decisão. Perceber uma mudança, afinal, não significa necessariamente estar preparado para responder a ela.
Um dos exemplos trazidos por Roger é o impacto do WhatsApp e do Skype sobre as operadoras de telefonia. A transformação estava acontecendo diante delas, mas reconhecer a ameaça não foi suficiente para reorganizar estratégia, recursos e modelo de negócio a tempo.
Um cenário só vira estratégia quando muda de fato alguma escolha da empresa.
Sem essa mudança, a leitura sobre o futuro pode continuar apenas como informação, sem produzir consequências concretas para o negócio. Essa dificuldade aparece também quando a empresa precisa decidir onde colocar seus recursos. Diante de diferentes possibilidades, é tentador tentar acompanhar todas as mudanças ao mesmo tempo.
Mas estratégia também envolve escolher o que não fazer, quais oportunidades não perseguir e quais capacidades precisam ser desenvolvidas para que a organização esteja preparada para aquilo que pode vir pela frente.
Por isso, ampliar repertório não significa acumular informações sobre tendências. Significa criar condições para que a liderança consiga olhar para além da operação cotidiana e questionar algumas das certezas que orientam as decisões atuais. Muitas vezes, o problema não está na falta de informação, mas na falta de espaço para transformar essa informação em reflexão e, depois, em escolha.
E essa discussão não pertence apenas às grandes empresas. Pequenas e médias organizações dificilmente terão áreas dedicadas a estudar futuros possíveis, mas também precisam observar movimentos para além do próprio mercado, ampliar referências e criar espaço para pensar antes que a mudança vire urgência. Quando a operação ocupa todo o espaço da liderança, questões importantes sobre o futuro acabam sendo adiadas até o momento em que já não há tanto tempo para decidir.
No fim, estratégia não elimina a incerteza. Ela ajuda a empresa a tomar decisões melhores mesmo quando não existem respostas definitivas. É sobre conseguir perceber o que está mudando, entender o que isso pode significar para o negócio e transformar essa leitura em escolhas concretas.
É um episódio para quem precisa decidir sem ter todas as respostas e sente que a estratégia da empresa nem sempre sobrevive ao dia a dia da operação.
🎙️ Assista ao episódio completo do Consense Talks com Roger Ingold.
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